Mesmo com uma menor mobilização dos evangélicos este ano, Lula não consegue atrair votos no segmento

Lula recebe pastores evangélicos no Planalto, juntamente com Jorge Messias, então favorito ao STF
O presidente Lula (PT) chega à reta final da eleição sem conseguir ampliar seu apoio entre os evangélicos, que no passado já votaram majoritariamente no PT. A dificuldade de se reaproximar desse numeroso e estratégico eleitorado persiste mesmo em um ambiente menos hostil do que o de 2022.
A desvantagem do presidente no segmento é observada há meses nas pesquisas, um indicativo de que, até o momento, os esforços do PT para recuperar o apoio do grupo não surtiram efeito. Em algumas sondagens recentes, a diferença entre o petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega a ultrapassar 50 pontos porcentuais em simulações de segundo turno.
A preferência por Flávio, no entanto, não parece decorrer de uma identificação forte dos evangélicos com o senador ou com seu projeto eleitoral, avalia Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest.
Nos grupos focais realizados pelo instituto, ela afirma que Flávio não é percebido como alguém próximo do meio evangélico. Sua candidatura tampouco desperta entusiasmo entre os fiéis, que demonstram cansaço com a política e resistência até mesmo a assistir ao horário eleitoral gratuito.
A avaliação de que Flávio não construiu uma ligação própria com os evangélicos também é feita pelo cientista político e pesquisador do Cebrap Vinicius do Valle, que realiza pesquisas com esse público há mais de dez anos. Para ele, o antipetismo é o que está por trás do bom desempenho do senador.
Para Valle, a apatia ainda predomina nas igrejas, mas os recentes embates envolvendo os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Alexandre de Moraes – o primeiro, declaradamente evangélico – ajudaram a “acordar” uma fatia desse eleitorado para a disputa presidencial.
Nas pesquisas qualitativas da Quaest, os evangélicos descrevem o STF como uma instituição “corrupta”, que se tornou um “partido político” e um “atraso” para o País, segundo Luciana Andrade. Moraes, em especial, enfrenta forte rejeição nesse grupo e é associado por esses eleitores a Lula – um elemento que tende a dificultar ainda mais a tentativa do PT de reconstruir sua relação com os fiéis.
Os evangélicos já foram uma importante base eleitoral do Partido dos Trabalhadores no passado. Em quatro eleições presidenciais consecutivas, a maioria desse grupo votou em candidatos petistas no segundo turno. Em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez presidente da República, ele recebeu 63% dos votos válidos entre os evangélicos na disputa contra José Serra (PSDB). O desempenho se repetiu nas eleições de 2006, 2010 e 2014, todas contra candidatos tucanos.
O ponto de inflexão veio em 2018, quando Jair Bolsonaro, embalado por um discurso de defesa de pautas morais e de costumes, alcançou 70% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 30% de Fernando Haddad (PT). A aproximação com o campo conservador se manteve em 2022, quando Bolsonaro voltou a superar Lula amplamente entre esses eleitores.
Na mais recente simulação de segundo turno da pesquisa Quaest, Lula aparece com 31% dos votos válidos entre os evangélicos, contra 69% de Flávio – resultado semelhante ao registrado em 2018.
Parte do esforço de aproximação de Lula com os evangélicos é capitaneado pela primeira-dama Janja da Silva, que desde o ano passado tem promovido encontros com mulheres evangélicas. Em junho, Janja também participou do Encontro Nacional de Evangélicos com o PT, ocasião em que respondeu a críticas do pastor Silas Malafaia, chamando-o de “insignificante”.
No ato de lançamento da candidatura de Lula, a primeira-dama cantou um jingle da campanha do marido com o cantor gospel Kleber Lucas e, durante um comício em Teresina, afirmou que Lula é o “verdadeiro ungido de Deus”.
Créditos: Estadão




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