Operação mais letal do RJ joga segurança no centro da disputa política
- Jason Lagos
- 29 de out.
- 3 min de leitura

A ação envolveu cerca de 2,5 mil agentes da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Ministério Público do Rio
A megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, nessa terça-feira (28), já é considerada a mais letal da história do estado. Com 64 mortos — incluindo quatro policiais — e 81 presos, a operação serviu de palco para disputa política e colocou a segurança pública no centro da corrida eleitoral de 2026.
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), classificou a ofensiva como “a maior operação da história das polícias do Rio” e acusou o governo do presidente Lula de se omitir diante da escalada da violência. “Fomos deixados sozinhos”, disse.
Como Lula estava incomunicável — no voo da Malásia para o Brasil —, os ministros Rui Costa (Casa Civil), Ricardo Lewandowski (Justiça) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), além do presidente em exercício, Geraldo Alckmin, encabeçaram a resposta do Planalto.
Em coletiva de imprensa, na Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), Lewandowski negou que o governo do Rio de Janeiro tenha solicitado apoio. “Não recebi nenhum pedido do governador”, afirmou.
Em entrevista ao Metrópoles, o governador Cláudio Castro apontou as fragilidades do governo federal com a pauta da segurança pública.
“É uma crítica recorrente que eu faço: entendo que esta gestão não vê segurança pública como prioridade. É uma crítica que eu faço recorrentemente e mantenho”, declarou.
Castro disse, na entrevista, que “não adianta o ministro ficar chateado porque [a segurança] não é prioridade deles, sobretudo a questão de fronteiras”. “Ano passado, o Rio apreendeu 732 fuzis – e o Rio de Janeiro não produz armas. Essas armas estão entrando pelas fronteiras federais. Não há, pelo que a gente tem visto, ações. Elogiei a PF por ter estourado fábrica de fuzis em SP. Mas, mais uma vez: esses fuzis entram pelas estradas federais”, declarou.
Mais cedo, em coletiva de imprensa, Castro também criticou a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 635 — a chamada ADPF das Favelas — que limita operações em áreas densamente povoadas. “São os filhotes dessa ADPF maldita. Essa operação é de defesa, não é segurança urbana comum”, afirmou.
No pronunciamento, Castro pontuou que não chegou a solicitar auxílio do governo federal para a operação desta terça-feira, uma vez que, anteriormente, pedidos para o uso de blindados teriam sido negados. “Tivemos pedidos negados três vezes. Para emprestar o blindado, tinha que ter GLO [Garantia da Lei e da Ordem], e o presidente é contra a GLO. Cada dia é uma razão para não colaborar”, afirmou.
Em abril deste ano, o STF aprovou, por unanimidade, medidas para a reduzir a suposta letalidade policial no Rio de Janeiro. A ADPF das Favelas foi apresentada, ainda em 2020, pelo Partido Socialista Brasileiro. À época, o ministro Edson Fachin deu liminares restringindo operações policiais nas favelas.
Nesta quarta-feira (29), o primeiro compromisso de Lula após desembargar da viagem à Ásia será um encontro com Rui Costa para tratar da situação na capital carioca. O Planalto ainda negocia reunião presencial com Cláudio Castro, que ocorrerá em Brasília ou no Rio de Janeiro.
A ação envolveu cerca de 2,5 mil agentes da Polícia Civil, da Polícia Militar e do Ministério Público do Rio (MPRJ). O objetivo era desarticular a estrutura do Comando Vermelho (CV), principal facção do tráfico no Estado.
Durante o confronto, criminosos ergueram barricadas, lançaram explosivos por drones e abriram fogo contra as equipes policiais.
O tiroteio se estendeu por várias áreas, deixando moradores em pânico e interrompendo o funcionamento de escolas, transportes e serviços públicos.
Ainda ontem, o ministro do STF Alexandre de Moraes deu 24 horas para a Procuradoria Geral da República (PGR) se manifestar sobre a ação no Rio. Isso porque o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) acionou o tribunal.
A entidade quer que a Corte obrigue o governador do Rio de Janeiro a prestar informações a respeito das ações da polícia. Entre outras informações, o CNDH cobrou o número de agentes envolvidos, identificação das forças atuantes e armamentos utilizados.
Idealizador do filme Tropa de Elite, o ex-capitão do Bope (Batalhão de Operações Especiais) Rodrigo Pimentel disse à Folha nesta terça (28) que a expansão territorial de facções ameaça a soberania nacional.
Segundo ele, o Brasil vive hoje situação pior do que a da Colômbia, país que atravessou décadas de conflitos com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias) e com carteis de narcotráfico.
“Não há em Bogotá ou Medelín áreas urbanas dominadas como as do Rio. Esqueça a Colômbia. Lá temos áreas rurais ocupadas por resquícios das Farc. Urbanas, não”, afirma Pimentel.
“O que você vê no Rio, em Salvador ou em Fortaleza não existe na América do Sul”, acrescentou ao comentar a operação do Rio de Janeiro contra o Comando Vermelho realizada nesta terça (28). A menção às capitais da Bahia e do Ceará decorrem da expansão da facção a esses Estados.
Créditos: Metrópoles e Revista Oeste



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